Julgar os outros

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Depois que um casal se mudara para um prédio de apartamentos, a esposa sempre se queixava ao esposo sobre a roupa suja que, pela janela, via estendida embaixo, atrás de uma casa. Ela sempre dizia que aquela mulher não sabe o que é limpeza, não sabe lavar roupa. Era este o assunto sempre de novo, até que o marido cansou de ouvir a mesma coisa e limpou os vidros da janela do seu apartamento. Aí sim. Mudou o assunto da esposa: “Agora ela sabe lavar roupa, marido. Venha ver”. Ao que o esposo responde: “Mulher, o que estava sujo era o vidro da nossa janela. Eu limpei. Por isso,você agora vê a roupa limpa”. Creio que esta história fala por si mesma.

Em vez de explicações teóricas, vou citar um trecho de um livro de Albino Luciani, que depois foi Papa João Paulo I. Ele diz:”Francisco de Sales….escrevia: “Nós acusamos o próximo de coisas leves, e desculpamos em nós mesmos coisas graves… Queremos que se faça justiça em casa dos outros, e que se use de misericórdia em nossa casa. Queremos que sejam bem interpretadas as nossas palavras e nos escandalizamos com as alheias. Se algum dos nossos inferiores não tem boas maneiras para conosco, levamos a mal tudo o que fizer; pelo contrário, se alguém nos é simpático, desculpamos-lhe tudo. Os nossos direitos são reivindicados com rigor, mas queremos que os outros sejam discretos na reivindicação dos seus… O que fazemos pelos outros sempre parece muito; o que os outros fazem por nós parece ser nada”. (Albino Luciani, Ilustríssimos Senhores, Ed. Loyola, SP, 1979, pg. 15-16).

Diante da clareza da citação anterior, em vez de palavras minhas, cito palavras de outra pessoa: “Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter… calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri… percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz… E então, só assim poderá julgar!!!” (Clarice Lispector). Sempre faz bem colocar-se em lugar do outro.

Julgar é colocar-se em nível superior aos outros. Jesus não veio ao mundo para julgar, mas para perdoar. No evangelho de São João 3,17 a gente lê: “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele”. Sobre julgamento na Bíblia encontramos várias passagens. Lembro algumas: Sabedoria 11,23-12,21;  Salmo 7,12;   10,8;  Isaias 5,1-7; Mateus 7,2-5.

No Antigo Testamento não havia advogado de defesa. Esta função era própria do juiz. E se Cristo vem julgar no final dos tempos, a parusia, Ele vem repleto de justiça e misericórdia. Aí se vê como é muito ridículo falar dos outros, condenando-os. Condenar o próximo é condenar a si mesmo. Quando eu morei entre os índios tiriós lá na fronteira norte do Brasil, os índios diziam de uma índia que ela adoecia se não tivesse assunto para falar da vida alheia. Como seria melhor a convivência no seio da humanidade se a preocupação de cada pessoa fosse fazer o bem uns aos outros! Este assunto eu o escrevi a pedido de Clotário (Fortaleza).

Frei José Antônio Góis, OFM   jaggois@yahoo.com.br

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