Saudades do silêncio

Há ruídos demais.  Sons dos veículos, da tagarelice, das músicas sem beleza.  Há gritos dentro de cada um de nós que abafam nosso eu mais interior.  Tudo é zoada. Ficamos surdos e 

não sabemos mais falar de verdade. Nosso interior foi se esvaziando de nós mesmos. Quando falamos, o que dizemos é insignificante. Tornamo-nos seres vazios de nós mesmos e não escutamos mais a voz do Mistério.

Há esse barulho exterior. Carros, gritos, berros. E esse nosso “eu” perdido e sufocado. Perdido. Mesmo quando percorremos áreas de silêncio exterior temos medo do “barulho” do silêncio. O silêncio nos incomoda. Além da invasão do barulho exterior há esses gritos interiores. Essa falta de coragem de vermo-nos e ouvirmo-nos. Nas praças, nos restaurantes, até mesmo nas capelas as pessoas estão em rede, comunicando, deixando que os ruídos interiores as entorpeçam. As pessoas querem se comunicar, mostram suas ideias nem sempre aproveitáveis e até mesmo exibem o corpo com certo despudor. Tudo leva a uma excitação sem nome. Como não ficar “louco” com tantas informações? Temos  saudade do silêncio. Ou não?

Viemos de um silêncio eterno que os místicos chamam de “nada”. Esta experiência fundadora culmina no seio materno onde, como reza um midrash judaico, conhecemos toda a Torá sem haver escutado ou pronunciado sequer uma palavra. Somos também o único animal da criação sabedor, de ciência certa, que nosso destino final é esse mesmo silêncio eterno que representamos com a imagem de um desaparecimento total ou simplesmente com um além. Somos silêncio, cidadãos do silêncio, viandantes angustiados e apressados, em caminho de volta para esse nossa verdadeira pátria.  Tudo o mais é ilusão  (Simón Pedro  Arnold, OSB, , Revista  Testimonio,  Chile, p. 35).

Como acontece com o ar, meio onde a luz se propaga e vibram infinidades de ondas, como o fogo que aquece e ilumina, como a terra que nos sustenta e alimenta, o silêncio é elemento vital indispensável para nossa “subsistência” espiritual, para nosso equilíbrio interior, para a paz e a inteligência do coração e da alma. É também elemento raro, sutil e frágil que precisa ser procurado e buscado e fertilizado com todo carinho para que venha a ter viço e fecundidade.  O ar viciado é irrespirável, o fogo mal cuidado morre ou tudo destrói, a água poluída se torna veneno e a terra descuidada torna-se estéril; da mesma forma o silêncio  – e a solidão à qual está vinculado  – precisa ser desejado, respeitado e cultivado  com atenção e paciência para se transformar  em puro espaço de concentração, de meditação e de sonho. Se quisermos perceber, por mais tenuemente que seja, o pulsar do mundo, o sopro que sustenta o Invisível, algum eco colhido  no cantar dos confins, será preciso desenvolver a acústica do silêncio”  (Sylvie  Germain).

O silêncio num momento de tristeza fala mais do que as palavras. Quando perdemos um ente querido, frases de condolência são completamente impotentes. Queremos confortar o outro com nossa ternura e delicadeza, mas nossas tentativas serão em vão.  No melhor dos casos expressarão gentileza e afeto pessoal, mas não terão o poder curativo que tem o silêncio.  Nessas horas, um abraço silencioso diz mais do que qualquer protocolo ou fórmula  praticados na presença do corpo daquele que se foi. Alguns dizem: “Era a hora dele”, outros, “meus sentimentos”, “rezarei por ele, “Deus o chamou”, ou mesmo, “agora ele descansou”. Todo esse rosário de expressões bem-intencionadas, ditas de coração, são muito pouco quando comparadas com a força comunicativa  de um abraço silencioso, porque no abraço os dois corpos se unem em um só e as distâncias desaparecem.   Consequentemente, a empatia é a maior possível. É preciso ter a coragem de calar  quando o silêncio é mais expressivo que as palavras. Muitas vezes falamos para evitá-lo, já que ele nos desnuda, nos desarma, enquanto as palavras distraem, entretêm.  Por isso é preciso se despir  das vestes das palavras e encontrar-se nu diante do outro  (O valor de ter valores, Francesc  Torralba,  Vozes, p.  85-86).

O homem moderno já acha  difícil estar só; ir em busca  dos  fundamentos do seu próprio eu é quase impossível para ele. E quando alguma vez permanece consigo mesmo no cantinho silencioso, e estiver quase  chegando ao conhecimento de Deus, ele liga o rádio ou a televisão (Thomas Merton).

http://www.franciscanos.org.br/?p=141673

 

 

 

 

 

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