Santo Antônio viveu comprometido só com o Evangelho. Foi o que ele buscou viver entre os franciscanos que tinham sua Regra de vida que começava assim: “A Regra e a vida dos frades menores é viver o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, em obediência, sem nada de próprio e em castidade.
Quando uma pessoa tem compromisso só com o Evangelho, torna-se livre para anunciar o que Deus inspira e denunciar tudo o que está contra a Sua vontade. Por isso, Santo Antônio foi sempre uma pedra de tropeço para quem andasse no caminho da injustiça e da opressão aos pobres.
Sua atuação como pregador foi o anúncio da vida em abundância para todos, mas em especial dos que dela são privados. Também Jesus inaugura sua missão evangelizadora, segundo o evangelho de Lucas, dizendo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Notícia aos pobres...”(Lc 4,18). Jesus lê e diz que nele se cumpre a palavra de Deus anunciada pelos profetas.
Santo Antônio, cheio da força da palavra profética de Deus, atacava publicamente as injustiças e as desordens sociais.
Contra os que exploravam os pobres sempre teve palavras claras. Num de seus sermões afirma: “Quem aperta uma pessoa pela goela, tira-lhe a voz e a vida. As posses do pobre são a vida dele, e como a vida vive do sangue, ele deve viver disso. Se tirares aos pobres seus parcos haveres, estarás a sugar o sangue dele, estarás a sufocá-lo, e enfim tu mesmo serás sufocado pelo diabo”.
Durante sua vida de pregador, confrontou-se com um rico latifundiário chamado Ezzelino que, inclusive, quis matar Santo Antônio.
Outro fato que devemos conhecer é que Santo Antônio conseguiu a anulação de uma lei que vigorava em Pádua e em muitos lugares da Itália. Essa lei favorecia os agiotas da época pois punha na prisão perpétua quem não pudesse pagar suas dívidas. Também os fiadores sofriam o mesmo castigo. Nosso Santo consegue anular essa lei injusta e no dia 15 de março de 1231, o governo de Pádua promulga uma nova lei que dizia: “A pedido do venerável irmão santo Antônio, confessor da Ordem dos Frades Menores, para o futuro nenhum devedor ou fiador poderá ser privado pessoalmente de sua liberdade quando não puder pagar a dívida. Somente suas posses poderão ser apreendidas neste caso, não porém sua pessoa e liberdade”.
Como podemos constatar, Santo Antônio foi grande defensor dos pobres usando a arma da Palavra de Deus e o testemunho de sua vida.
São Francisco queria que seus frades fossem homens simples, que pregassem a Palavra de Deus com a força do testemunho e não com a eficiência da sabedoria aprendida nos livros. Daí sua resistência ao estudo da teologia. Mas sua Ordem tinha um papel a realizar no meio de tantos grupos heréticos que confundiam a cabeça do povo e eram ousados na pregação.
Muitos frades já manifestavam o desejo de uma preparação teológica que desse condições para anunciar com segurança a Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja.
Antônio tinha condições de ajudar os irmãos nesta necessidade. Francisco compreendeu que era necessário ceder, embora colocando a condição fundamental para isso: o saber não tem um fim em si mesmo e nem deve ser meio para os irmãos adquirirem honra e fama perante os homens.
A permissão de São Francisco para Santo Antônio ensinar a teologia vai por meio de uma pequena carta com o seguinte conteúdo: “Eu Frei Francisco, saúdo a Frei Antônio, meu bispo.
Gostaria muito que ensinasses aos irmãos a sagrada teologia, contanto que nesse estudo não se extingam o espírito da santa oração e da devoção, segundo está escrito na Regra. Passar bem.
Ao chamar Santo Antônio de “meu bispo”, São Francisco quer indicar que a missão de Antonio se parece com a do bispo que na diocese é, por excelência, o administrador e distribuidor da Palavra de Deus.
Sabemos pouco sobre a atividade de Santo Antônio como professor de teologia! Mas os esquemas de seus sermões que ainda hoje nos encantam, nasceram nesta ambiente de ensino e certamente a pedidos dos frades que queriam aprender a partir daquilo que Santo Antônio falava ao povo.
Um dos primeiros frades a escrever a vida de São Francisco, Frei Tomás de Celano, assim se refere à presença de Santo Antônio no Capítulo da Ordem dos Frades Menores do ano de 1221: “Estava participando do Capítulo também Frei Antônio, a quem o Senhor abrira a inteligência para compreender as Escrituras, e que falava de Jesus a todo o povo com palavras mais doces que o mel e o favo” (1C 48).
E Antônio não decepcionou São Francisco, pois, ensinou aos frades a sagrada teologia somente para cultivar o gosto pela Palavra de Deus e iluminar a vida com a luz radiante da Palavra eterna que é o próprio Jesus.
Santo Antônio percebia que o surgimento de tantos movimentos religiosos em sua época e que terminavam na heresia, era causada, em grande parte, pelos próprios representantes oficiais da Igreja. No meio do clero não eram poucos os que relaxavam em suas obrigações pastorais e o mau exemplo de vida escandalizava os fiéis.
Falava Santo Antônio: “Os sacerdotes da Igreja não possuem a luz da sabedoria nem tampouco as verdadeiras virtudes no modo de agir, de maneira que o diabo dispersa as ovelhas e o ladrão, isto é, o herege, as arrebata para si”.
Nosso santo não poupou sua palavra profética contra o clero ganancioso e simonista, isto é, que ganhava dinheiro vendendo as coisas sagradas. Antônio o chama de “outros filhos de Jacó” que venderam seu irmão, José, por vinte moedas aos ismaelitas. Santo Antônio dizia: “Hoje José é Jesus que continuais vendendo”.
A palavra de Santo Antônio tem força por causa do testemunho que dá, e também porque a crítica que faz quer ser um apelo à conversão de todos que estão errados. Assim sendo, Antônio acorda os de dentro da Igreja e os que estão fora. A sua palavra profética denuncia todo mau exemplo, injustiça ou opressão que comprometem o plano de Deus para a humanidade inteira. Para Antônio a humanidade não possui a justiça de Deus “porque não O teme, desonra a religião, odeia o bem, torna-se ingrato para com Deus...”
Todos são chamados à santidade. Para ele “os santos nasceram para o bem do mundo porque a santidade é uma virtude que acaba beneficiando a todos”.
Se vivemos em Cristo, nossa vida iluminada na Dele, é luz que incomoda as trevas. Santo Antônio entendeu muito bem o que Jesus quis dizer quando afirmou: “Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo...” (Mt 5,13.14).
Santo Antônio foi mestre da oração para todos, mas em especial para as pessoas simples com quem falava e partilhava sua missão de pregador do Evangelho. Por isso, ao se referir à oração, ele afirma:
“Se alguém quiser rezar ou meditar melhor, procure então representar para si em imagens claras a humanidade de Cristo, seu nascimento, sua paixão e sua ressurreição!” E continua: “Esta maneira de meditar costuma dar aos pobres em espírito e aos filhos de Deus mais simples uma felicidade tanto maior no amor, quanto mais se aproximarem da humanidade Dele”.
Antônio está em sintonia com a espiritualidade de Francisco e de Clara: de Francisco nasce o presépio para contemplar o mistério da encarnação, e a via-sacra para meditar o mistério pascal do Senhor. Santa Clara, escrevendo a uma de suas irmãs, Inês, pede que a cada manhã, contemple como num espelho a vida de Cristo procurando assemelhar ao Seu rosto.
A oração franciscana é marcada pela simplicidade das palavras e a riqueza das atitudes interiores e corporais. A simplicidade faz-nos falar com a linguagem da vida, já a riqueza das atitudes interiores aparece no reconhecimento de quanto somos pequenos diante da grandeza de Deus. Mas isso me enche de alegria, de humildade e confiança que me leva a entregar-me plenamente nas mãos de Deus. As atitudes corporais significam a sintonia com a natureza e o reconhecimento de que a criação reza conosco.
Santo Antônio não nos deixou um método de oração, mas em suas palavras encontramos muitas orientações concretas e seguras para buscarmos e vivermos a intimidade com o Senhor: “O bom mestre nos convida para longe da multidão inquieta: Vinde para a solidão do corpo e da alma”. Outra afirmação interessante de nosso santo é: “A vida do corpo é a alma, a vida da alma é Deus”.
Santo Antônio dizia: “Podemos rezar de três modos: com o coração, com a boca e com as mãos”. Rezar “com o coração” com a atitude do verdadeiro orante que reconhece diante de Deus sua pequenez, sua pobreza e reza na humildade. Mas mesmo nesta condição nossa boca não pode calar quando o coração sente a força da misericórdia de Deus e assim “a boca fala daquilo que o coração está cheio”. E à semelhança da Samaritana, temos de dizer: “Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz” (Jo 4,29). Mas o coração que acolhe a misericórdia e a boca que a proclama leva a pessoa a agir bem, como dizia o próprio Jesus: “Que a vossa luz brilhe diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e louvem vosso Pai que está no céu” (Mt 5,16).
Em Jesus entramos em comunhão com o mistério de Deus. Jesus nos revela o rosto do Pai e nos dá o Espírito Santo. Em Deus não há solidão, mas comunhão das Três divinas Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
Santo Antônio proclamou com palavras belíssimas o mistério da Santíssima Trindade: “Na Trindade se encontra a origem suprema de todas as coisas e a beleza perfeitíssima e o deleite beatíssimo. A origem suprema é Deus Pai, de quem procedem todas as coisas, de quem provêm o Filho e o Espírito Santo. A beleza perfeitíssima é o Filho, verdade do Pai, que lhe não é dessemelhante em ponto algum. O deleite beatíssimo e a soberana bondade é o Espírito Santo, dom do Pai e do Filho”.
Nestas palavras encontramos o ensinamento da Igreja associado à beleza e as comparações que Santo Antônio usava pala falar de mistério tão grandioso. Noutro sermão, ele usa uma comparação com a palavra “paz”, em latim, pax: “Na palavra PAX, há três letras e uma sílaba, em que se designa a Trindade e a Unidade: no P, o Pai; no A, primeira letra, o filho, que é a voz do Pai; no X, consoante dupla, o Espírito Santo, procedente de ambos. Assim, ao dizer Jesus aos discípulos: 'A paz esteja convosco', recomenda a fé na Trindade e na Unidade”.
Muitas vezes temos dificuldade de falar da Santíssima Trindade e Santo Antônio numa linguagem comparativa, alegórica, fala com simplicidade do mistério de Deus. Mas Antônio quer mostrar, sobretudo, as conseqüências de nossa fé na Trindade Santa. A conseqüência fundamental para quem acredita da Trindade é que nossa vida só tem sentido e só pode ser vivida em comunhão com os outros, com a criação e com Deus. A beleza da vida está na comunhão e na comunicação. É verdade que, na prática, tendemos à solidão e ao isolamento. Mas vibra em nós a realidade de Deus, a verdade suprema que é não a solidão de uma Pessoa, mas a comunhão e a comunicação das Três divinas Pessoas em um só Deus.
Santo Antônio afirma com beleza: “Na Trindade não se devem fazer degraus, de modo que o Pai se creia maior que o Filho, ou o Filho menor que o Pai, ou o Espírito Santo menor que ambos; mas deve-se acreditar que são simplesmente iguais, porque qual é o Pai, tal é o Filho e tal é o Espírito Santo”.
Pelo Batismo mergulhamos na vida da Trindade Santa e nos tornamos instrumentos de unidade na diversidade.
“Senhor, a luz do teu rosto, a luz da graça que estabelece em nós a tua imagem e nos torna semelhante a ti, está gravada em nós, impressa na razão como selo em cera”.