MISSÃO TIRIYÓS

Extensão Missionária da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil entre os Índios Tiriyó na Serra do Tumucumaque, extremo Norte do Estado do Pará.

A Missão dedica-se a índios do grupo lingüístico ‘karib,’ chamados pelos brancos de Tiriyó, mas que se autodenominam ‘taröno’.

Eles habitavam na época as cabeceiras dos rios Pönama, Marapi, Paru d’Oeste e Paru de Leste com o Citaré, no extremo norte do Estado do Pará, região limítrofe com o Suriname, e algumas cabeceiras dos rios Tapanahoni e Courantine-River do outro lado da Serra do Tumucumaque. Os mapas, abaixo, poderão dar uma noção aproximada para localização do habitat dos Tiriyó.

Iniciada, a convite da Força Aérea Brasileira (FAB), em 1960, a Missão Tiriyó foi assumida em 1964 pela Província Franciscana “ad ex­pe­rimentum” como um compromisso da mesma com a evangelização dos silvícolas daquela região longínqua e de difícil acesso, sendo os primeiros missionários os nossos Freis Angélico Mielert e Cirilo Haas.

Se a primeira fase do trabalho missionário consistia mais numa convivência amigável e pacífica (missionário = hóspede), a segunda, após mais ou menos cinco anos, já visava a catequese, familiarizando os índios com os prin­cípios da doutrina cristã e as nossas celebra­ções (Liturgia), despertando primeiramente curio­sidade por parte dos índios e, posteriormente, levando até a um bem vivo interesse pelos contos dos frades a respeito de Jesus e seus feitos (missionário = xamã, pajé).

A esta segunda fase se sobrepôs, aos poucos, uma terceira que poderíamos chamar de ‘fase industrial’, pois conhecendo melhor a má qualidade dos solos, pouco favoráveis à agricultura, e preocupados com a sobrevivência física do grupo indígena a eles confiado, os frades começaram a pensar numa maneira de como garantir a mesma, optando por adotar o sistema de uma agricultura semi-mecanizada (missionário = agrônomo / pecuarista / me­cânico). Esta opção, por sinal não absorvida pelos índios (o que só constatamos bem mais tarde), trouxe a ‘civilização’; uma coisa puxando outra atrás de si: o trator precisando de oficina, a qual por sua vez não funciona sem energia elétrica, o grupo gerador precisando de manutenção, etc.

Quando os primeiros índios foram batizados (a partir de aproximadamente sete anos de presença dos missionários), a aldeia da Missão Velha já possuía, além da capela, uma casa de força com grupo-gerador, oficina mecânica e serraria primitivas, cobertas de palha, mas em condições de funcionar.

Em outubro de 1976 ocorreu um grande incêndio, em cuja conseqüência se acelerou a mudança da Missão Velha, (já pequena demais para as necessidades dos missionários e o grupo aumentado dos índios) para a chamada Missão Nova onde rapidamente foram construídas novas instalações, mais modernas e completas: Igreja, Escola, oficinas mecânicas e carpintaria, quase tudo em alvenaria. Uma olaria construída anteriormente garantiu a execução destes empreendimentos .

 

ABAIXO, ALGUMAS FOTOS DESTA FASE DE CONSTRUÇÃO DA MISSÃO NOVA.

A localização da Missão Nova Frei Cirilo já tinha sido escolhida fazia anos, por oferecer a possibi­li­dade de instalar, futuramente, uma turbina hidrelétrica que livraria a Missão (e o Desta­ca­mento da FAB) da necessidade de importar o combustível a altíssimos custos, por ser aero­trans­portado, sonho este que, ao menos parcialmente, se realizou em 1994 com a inauguração da dita ‘turbina’. Por se tratar de um lugar relativamente plano e bem mais espaçoso do que a Missão Velha, também os índios trataram de se mudar para a Missão Nova, pedindo a indicação de terreno para construir suas casas.

Na foto acima se vê que foi observado um certo alinhamento, pois a aglomeração irregular de várias casas, usual nas pequenas aldeias dos ‘clans’ com o seu pata-entu, iria dificultar muito o atendimento das casas com energia elétrica, bem como o traçado dos esgotos.

Enquanto que nos anos 80 os frades se ocuparam com a topografia, escavação de canais e construção de barragens para formação de açudes, isto é, reservatórios de água (inclusive para criação de peixes), os índios se instalaram, não sem a ajuda dos missionários, na Missão Nova. Pequeno número deles permaneceu na Missão Velha. Esta mudança de uma aldeia para outra se fez acom­panhar por uma mudança na estrutura das casas: enquanto as casas tiriyó (originais), cobertas de palha e sem paredes laterais, davam acesso fácil ao mosquito da malária, as casas novas, feitas de madeira ou de taipa, com janelas e portas, podiam ser imunizadas mais facilmente contra o mesmo, razão esta porque os frades apoiaram esta modalidade. Isto pôs fim a uma cerrada discussão a favor ou contra a ‘cultura habitacional’ costumeira, visto ainda que a incidência de malária chegou, na época, a 60-70 casos a serem tratados ao mesmo tempo.

Os anos 90 trouxeram a demarcação das terras indígenas, a ‘Reserva Indígena do Tumuc­umaque’, que levou vários grupos de famílias (clans) a procurar novos espaços para a fundação de aldeias ao longo dos Rios Marapi e Paru d’Oeste. Novas terras cultiváveis e maior facilidade de caça e pesca con­sti­tuíram motivo bastante forte para os índios se mudarem. Para os frades houve ainda um outro fator: a criação de aldeias em pontos estratégicos garantiria a segurança dos limites da Reserva contra possíveis invasões indevidas por parte de brancos.

Atualmente, os índios Tiriyó vivem em cerca de 20 aldeias, sem contar a Missão Nova, que seria a maior de todas com cerca de 400 indivíduos. Sete aldeias, incluindo Kusare, constituem as aldeias baluartes da Reserva Indígena. Nestas aldeias também se concentra um maior número de índios que retornaram (em 2a ou 3a geração) do Suriname, para onde seus pais ou avós tinham emigrado no início da década de 1960, convocados por missionários protestantes americanos, deixando quase despovoado o Tumucumaque Brasileiro.

São estas também as aldeias que mais estão esperando por visitas pastorais dos frades missionários, os quais devido às suas idades avançadas já se sentem incapazes de empreender viagens de vários dias em canoas relativamente pequenas, para atender o chamado dos nossos amigos índios ‘na diáspora’. Daí nos perguntarmos, atualmente: “Onde estão os novos reforços? De onde virão mais operários para essa Messe?”

+ Frei Bento Letschert, OFM
Missionário