Retiro Provincial: uma pausa restauradora no compasso do Cântico das Criaturas
Durante cinco dias de retiro, Frei Celso Márcio guiou os frades por uma profunda meditação sobre o Cântico do Irmão Sol, de São Francisco. A reflexão abordou os aspectos históricos, teológicos e ecológicos do texto, destacando sua atualidade. O retiro foi um chamado à contemplação, ao cuidado com a criação e à conversão do olhar. Inspirado pela espiritualidade franciscana, uniu oração, arte e compromisso com a vida.
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26.07.2025 10:02:16 | 1 minutos de leitura

Durante cinco dias (21 a 25 de julho) de silêncio, escuta e profunda meditação, Frei Celso Márcio Teixeira, centrado nos 800 anos do Cântico do Irmão Sol, propôs uma verdadeira imersão na espiritualidade franciscana, a partir desse texto-poesia que continua a ecoar como um chamado à contemplação e ao cuidado com a criação.
Ao longo das manhãs e tardes, Frei Celso conduziu os frades por um itinerário de reflexão que partiu dos aspectos históricos do Cântico. Recordou que Francisco o compôs em um contexto de grande sofrimento físico, próximo de sua morte, o que não apagou, mas intensificou a beleza de seu louvor. Explicou que o texto se estrutura em três partes, revelando uma dinâmica interior que vai do louvor pelas criaturas à paz com os inimigos e, por fim, à acolhida da irmã morte.

O pregador também destacou a inspiração bíblica presente no Cântico, especialmente sua proximidade com o relato do livro de Daniel, onde todas as criaturas são convocadas a bendizer o Senhor. Francisco, inspirado por esse louvor cósmico, compõe também um hino que envolve toda a criação. Frei Celso ressaltou ainda a sensibilidade artística de Francisco: “Não se pode desligar a arte do mistério — e, na religião, chamamos esse mistério de Deus”, afirmou. Lembrou que o Cântico era originalmente cantado, embora sua melodia tenha se perdido com o tempo, como também ocorreu com o texto “Ouvi, pobrezinhas”, dirigido às Clarissas.
Na segunda etapa do itinerário, Frei Celso mergulhou na dimensão teológica do Cântico, revelando como, mesmo sem formação teológica formal, Francisco expressava com profundidade a fé cristã por meio de sua intuição espiritual. Ressaltou que, ao chamar o Sol, a Lua, o Fogo e a Terra de irmãos e irmãs, Francisco inaugura um novo olhar sobre a criação — um olhar fraterno, não utilitarista. “Um coração utilitarista não é capaz de contemplar”, provocou o frei, fazendo um convite à conversão do olhar.

A terceira e última parte da reflexão trouxe o Cântico das Criaturas para os desafios do tempo presente. Frei Celso traçou um paralelo com a crise ecológica, lembrando que, com a Revolução Industrial, a preservação ambiental tornou-se uma pauta urgente diante do consumismo e da exploração desenfreada. Nesse contexto, a figura do Papa Francisco surge como voz profética, especialmente com a Encíclica Laudato Si’, inspirada no Cântico das Criaturas, na qual denuncia os pecados sociais cometidos contra Deus ao destruir a criação.
Durante o dia, a programação do retiro iniciava com a Santa Missa, seguida das Laudes. Pela manhã e à tarde, os momentos se alternavam entre meditações conduzidas pelo pregador e tempos de reflexão individual. Ao final do dia, aconteciam celebrações comunitárias, como a Adoração ao Santíssimo, a Meditação da Via-Sacra e a Celebração Penitencial.

O retiro, mais do que um tempo de descanso, foi um chamado à ação contemplativa — a reencantar o olhar, reaprender a louvar e reencontrar, nas criaturas, irmãs e irmãos, o reflexo da bondade do Criador. Que o espírito do Irmão Francisco continue a nos provocar a viver em paz com toda a criação, celebrando a vida com gratidão e reverência.



Fonte: Frei Abraão Silva, OFM
Imagem: Frei Abraão Silva, OFM e ASCOM (Assessoria de Comunicação do Convento Ipuarana)