Francisco de Assis: O Testamento de uma vida sem ocaso

São Francisco de Assis: a morte como passagem para a Vida

Artigos

27.08.2026 18:38:53 | 8 minutos de leitura

Francisco de Assis: O Testamento de uma vida sem ocaso

  •    Diante do mistério da morte, silenciam-se os doutos, cerram-se os olhos dos poderosos deste mundo e estremecem aqueles que fizeram das riquezas sua segurança. Entretanto, um pobrezinho, de baixa estatura, despojado das glórias terrenas, recebe com alegria o momento derradeiro e proclama: “Bem-vinda, minha irmã morte” (cf. II Celano 217,8).
  •    A maneira como esse homem, que já apresentava contornos de santidade, acolhe o momento derradeiro, cantando e alegrando-se, parece constituir um escândalo para os homens. No entanto, como escrevera Gibran, “o segredo da morte deve ser procurado no coração da vida”, e a existência de Francisco de Assis foi conduzida para esse momento, [...] pois, como afirma, são bem-aventurados aqueles que a morte encontrar na santíssima vontade de Deus (cf. Cântico do Irmão Sol), isto é, na vivência do Evangelho, sua regra de vida (cf. Rb 1).
  •    O caminho para compreender a experiência de Francisco diante da morte deve partir, antes de tudo, da compreensão de sua experiência da fé cristã. É essa conversão evangélica que permite ao jovem Pobrezinho de Assis interpretar a finitude sob uma nova lógica, na qual a morte deixa de ser compreendida como “inimiga e senhora da vida” para ser acolhida como “irmã”, destronando assim sua palavra final (cf. BOFF). Nessa perspectiva, a existência humana passa a ser lida à luz da dinâmica pascal.
  •    O homem cristão é um ser de passagem. Assim descreve Paulo ao afirmar: “A nossa pátria está nos céus” (cf. Fl 3,20). Não está na terra o seu fim último, pois a terra passará (cf. Mt 24,35), mas não a Palavra, que é a pessoa de Cristo, a qual Francisco abraçou com a inteireza de sua vida.
  •    Convém, nesse contexto, dedicar atenção à escatologia. Como afirmava Karl Rahner, ela não consiste em uma reportagem antecipada dos acontecimentos futuros, mas na transposição, para o modo da plenitude, daquilo que aqui é vivido em condição de deficiência (cf. BOFF). Em outras palavras, a escatologia não procura satisfazer a curiosidade acerca do futuro, mas iluminar o sentido último da existência humana a partir da revelação de Deus em Cristo.
  •    O céu constitui a realização plena da existência humana. Nele convergem todos os dinamismos da pessoa e alcança-se a plenificação de suas capacidades. Para essa realidade tende a vida do cristão; contudo, para nela ingressar, faz-se necessária a passagem proporcionada pela morte: a Páscoa, compreendida, em seu sentido originário, como passagem da condição histórica para a plenitude da comunhão com Deus.
  •    Essa compreensão ressignifica profundamente o sentido da morte. Cristo inaugura uma nova possibilidade de compreendê-la: a dor, quando acolhida na esperança e vivida em comunhão com Ele, pode tornar-se caminho, ponte e não obstáculo; verdadeira Páscoa. Nessa perspectiva, o sentido da cruz consiste precisamente em abrir ao homem o caminho da ressurreição (cf. LELOUP). É a integração do negativo que Francisco viveu ao longo de sua vida (cf. BOFF).
  •    A compreensão escatológica da fé cristã fundamenta-se na revelação de Jesus Cristo acerca da ressurreição. Ele próprio se apresenta como “a ressurreição e a vida” e estabelece a condição para que o homem participe dessa graça: “quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (cf. Jo 11,25-26).
  •    O desejo de acolher essa promessa fazia crescer no coração de Francisco “a pressa de sair deste mundo, como de um exílio de peregrinação” (II Celano 165,1). A verdadeira pátria do homem é a celeste; por isso, o mundo aparece, nas fontes franciscanas, como lugar de peregrinação e combate ou, nas palavras do próprio biógrafo, como “um campo de batalha” (II Celano 165,2). Porém, cabe compreender que a vida de conversão de Francisco não tem origem na fuga do mundo, mas, sim, na troca, no encontro, no diálogo, na abertura e na acolhida ao próximo (cf. O Senhor te dê a paz, 30).
  •    É, pois, no encontro com o leproso, desfigurado, que Francisco vê cair por terra suas certezas de glória e se abre para restabelecer a humanidade daquele homem. Nesta atitude, descobre o seu destino. Por isso, em seu Testamento (2), recorda, logo no início: “E o próprio Senhor me levou para o meio deles, e fiz misericórdia com eles”. Sua experiência atravessa as fronteiras geográficas, temporais e, sobretudo, existenciais, e continua a confrontar o mundo e inspirar a humanidade (cf. Dilexi te)
  •    A lógica da misericórdia evidenciada nesta atitude, muda profundamente a vida de Francisco de Assis, e entrega a nós uma herança e com ela uma responsabilidade (cf. Uma semente de vida eterna). O apelo outrora dirigido ao Poverello diz-nos respeito e nos interpela hoje; devemos dar resposta às expectativas e necessidades dos homens do nosso tempo (cf. A vocação da ordem hoje 3).
  •    Francisco de Assis tem a confiança de que a utopia da vida eterna se torna topia e de que a morte, consequentemente, adquire o sentido de gênese da vida (cf. BOFF). Nessa ambiguidade, o Testamento do Santo de Assis apresenta-se como prenúncio de uma vida sem ocaso.
  •    Nesta  certeza o medo da morte torna-se incompatível com aquele que conformou inteiramente a própria existência ao projeto de Cristo. Por isso o Pobrezinho de Assis, acolhe serenamente a própria morte. Francisco é um defunctus, é aquele que cumpriu sua missão, concluiu seu trabalho, assim, bem sintetizou o Frei Joel Postma na Cantata da Morte de São Francisco:
  •    “Que nossa irmã morte seja bem acolhida, como a gente acolhe o sono, depois de um dia bem ocupado.
  •    Neste horizonte de esperança, que permite vislumbrar o já e o ainda não, o Poverello abençoa não apenas os irmãos que já pertenciam à Ordem, mas estende também sua bênção àqueles que “hão de vir até o fim do mundo” (Testamento de Sena 3). Unido a esses irmãos que lhe foram dados por Deus (Testamento 14), Francisco prepara-se para morrer na Porciúncula, lugar onde seu projeto de vida teve início. Ali, ao revisitar suas memórias, contempla o espaço geográfico e teológico que testemunhou toda a sua trajetória: desde o despertar de sua vocação até o último suspiro.
  •    Francisco deita-se sobre a terra para dali nascer para a Vida Eterna (II Celano 217, 10). Seu morrer converte-se em um grande memorial celebrativo de uma existência que encontrou a sua plenitude no despojamento radical e na perfeita configuração a Cristo.
  •    Naquele gesto derradeiro, o santo de Assis testemunha que a morte, iluminada pela fé, deixa de representar o fim da existência para tornar-se a passagem definitiva para a comunhão plena com Deus, “despojado de tudo, vai livre para ele” (Legenda Maior 4, 3).
  •    Diante do mistério da morte, Francisco não responde simplesmente com uma teoria. Responde com a própria vida, a qual foi orientada em uma profunda relação com Deus, com sua palavra e com a Igreja (cf. O Senhor nos fala na caminhada 14).
  •    Francisco parte para o Pai, mas permanece entre nós vivo e atual. Os costumes e as práticas franciscanas, continuamente revividos por cada frade, constituem um testemunho da intuição originária que se fez vida na existência dos irmãos (cf. DESBONNETS). Sua experiência permanece atual e nos provoca a buscar a reconciliação em um mundo marcado pelas guerras, pela ausência de diálogo e, sobretudo, pela crescente desumanização.
  •    Não por acaso, o Decreto do Ano Jubilar Franciscano recorda que “o nosso tempo não é muito diferente daquele em que viveu Francisco” e que, justamente por isso, seu ensinamento permanece “hoje ainda mais válido e compreensível”. Diante das incertezas, das violências e das divisões do nosso tempo, a vida do Poverello continua a apontar para o Evangelho como caminho de fraternidade, reconciliação e paz.
  •    Celebrar Francisco, portanto, não significa apenas recordar uma figura do passado, mas deixar-se interpelar por seu testemunho e assumir, no presente, o compromisso de viver concretamente aquilo que ele anunciou com sua própria existência, somos chamados a “imitar o Pobrezinho de Assis”, formando-nos segundo o modelo de Cristo, para que “a esperança que nos viu peregrinos se transforme agora em zelo e fervor de caridade concreta” (cf. Decreto do Ano Jubilar Franciscano). Assim, a memória de Francisco torna-se compromisso, sua morte torna-se testemunho de esperança e sua vida continua a fecundar a caminhada daqueles que, ainda hoje, desejam seguir o Evangelho segundo a forma que ele recebeu de Cristo.

  • Bibliografia:

  • BOFF, Leonardo. São Francisco de Assis: ternura e vigor: uma leitura a partir dos pobres. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 1981.
  • DESBONNETS, Teóphile. Da intuição à instituição. Petrópolis: Vozes, 1987.
  • TEIXEIRA, Celso Márcio (org.). Fontes franciscanas e clarianas. Petrópolis, RJ: Vozes; Família Franciscana do Brasil, 2004.
  • TEIXEIRA, Celso Márcio (org.). Fontes franciscanas e clarianas. Petrópolis, RJ: Vozes; Família Franciscana do Brasil, 2004.
  • ORDEM DOS FRADES MENORES. O Senhor lhes dê a paz!: documento final do Capítulo Geral de 2003. Roma: Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores, 2003.
  • ORDEM DOS FRADES MENORES. A caminho: rumo ao Capítulo Geral Extraordinário: “A vocação da Ordem hoje”. Roma: Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores, 2005.
  • ORDEM DOS FRADES MENORES. O Senhor nos fala na caminhada: documento do Capítulo Geral Extraordinário. Roma: Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores, 2006.
  • BOFF, Leonardo. Vida para além da morte: o presente, seu futuro, sua festa, sua contestação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
  •  
  • Artigo: Frei Marcos Moisés, OFM (Noviço)

 

 

Fonte: Serviço Provincial de Comunicação - Frei Samuel Santana Reis, OFM
Imagem: Arte: Franciscanos.org
Mais em Artigos
 

Copyright © Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil.
Direitos reservados, acesse a política de privacidade.

X FECHAR
Cadastre-se para
conhecer o
nosso carisma